quarta-feira, 3 de novembro de 2010
Rotina
Era importante que compreendesse cada detalhe, cada encenação.
Só assim para captar o seu momento. Um fragmento que insiste em esquecer. Mas sempre vem à tona.
O lugar não estava cheio, mas estava a ponto de estourar.
Entrar no roteiro, subir no palco ou espiar pelo camarim?
Não importa a opção, nenhuma era verdadeira.
Achou que com a saída de cada um ficaria bem. Errou.
Esse não era seu papel, o estômago queimava e uma ânsia para agir tomou conta.
Respirou e foi dormir.
Um dia a mais, um pedaço a menos.
sábado, 26 de junho de 2010
Cristal
Sempre foi fascinada pela história do sapatinho de cristal. Quando muito pequena ganhara num par deles. Em toda ocasião os usava, junto com um de seus vestidos rodados e coloridos. Sentia-se uma princesa.
O tempo foi passando, ela foi crescendo. O sapatinho de cristal não servia mais. Ficava na prateleira do quarto, em cima de uma pequena almofada de cetim. Todo dia antes de dormir, ela lustrava o sapatinho, e ficava admirando. Quando sonhava entrava em um mundo de fadas, príncipes e princesas, de fantasia. Era doce. A vida era cor de rosa e doce.
Um dia algo fora do comum lhe ocorreu. O sapatinho caiu no chão. Um pedaço do salto fora quebrado. Ao mandar concertar sua preciosidade descobriu que ele era de vidro, não de cristal.
Olhou ao seu redor, numa tentativa de resgatar seus valores, seu reino de tules, paetes, rosas e sonhos. Foi
A angústia não desapareceu mas o mundo não era mais cor de rosa. Estava sozinha, em um quarto com uma almofada rasgada e um sapato de vidro. Não era mais a mesma, ou nunca tinha sido o que pensara. Tinha agora que conviver com isso. Tinha agora que encarar o fato de o mundo não ser de cristal.